Finita como flores

10 de abr. de 2014

Questão de tempo







O romance chama-se "Questão de tempo, a capa é de Sheila Emoingt, e tem o seguinte prefácio:

Leitora fiel de Gabriel García Marquez, Isabel Allende, e Mario Vargas Lhosa, sempre senti falta da vida sexual de seus personagens, o que me enche de curiosidade. Como era, de fato, deitar-se com um Buendía? Isabel Allende é boa de cama? A tia Júlia, de Vargas Lhosa, como transava? Se não estou à altura destes escritores, o leitor conhecerá, no meu livro, a vida sexual das várias gerações dos meus personagens.

Eu sempre quis escrever um livro como este, com histórias misturadas da minha família, da família dos outros, da minha imaginação, e de notícias de jornal que me impressionaram, como a da paratleta campeã Jessica Long, ou Tatiana Olegovna Kirillova, russa adotada por um casal americano, que inspirou a personagem que levou meu nome: Maria da Glória.

Nasci numa família de mineiros que sabem contar histórias. Minha mãe, suas irmãs e primos, todos bons contadores, e muito divertidos. Tenho Menezes tanto pelo lado de pai, quanto pelo lado de mãe. E sou prima do Maurício Menezes, do Plantão de Notícias. Jornalista e contador de casos, com muito humor, claro, ou não poderia ser meu parente.

Tio Dirceu, quando visito, levo gravador para não perder uma frase. Estive com ele em Diamantina, de onde veio minha família paterna, e meu tio me contou muitas histórias de nossos “antecipados”, como disse uma vez a Kris, minha amiga americana. Filmei meu tio e as casas onde viveram, o colégio onde estudou, tudo que pude. Diamantina é uma cidade tombada e, ao contrário do que o nome parece indicar, lá nada se tomba, todas as casas estão de pé, mesmo que seja só na fachada, como os Correios e Telégrafos, onde minha avó e suas irmãs trabalharam, e hoje, por dentro, é um restaurante. O passado me interessa.

Mesmo na idade em que as crianças e adolescentes preferem a companhia de seus pares, eu adorava ouvir minha mãe conversando com suas irmãs e primas, Shirley, Solange e Carminha. Até as coisas tristes eram transformadas em riso. E não faltaram coisas tristes, nem risos na minha infância.

Quase todos os meus primos de qualquer grau são engraçados, e bons contadoras de histórias, em especial Mônica, Alexandre e Tânia Horta. Talvez por isso, durante toda minha vida, eu tenha me apegado a amigos que sabem contar casos, e tive sorte: Christina Jorge, Regina Casé, Cecília Ribeiro, Mônica Peixoto, Elisa Lucinda, Regina Righi, Regina Coeli e Mariana, Célia Paulicelli, Nora Bernardes, Maria Paula Gomes, Rita Abreu, João Moita, Leila Alvarenga Barbosa,Pablo Manuel Menezes, que deve ser meu primo. E Carlos Mello, Sheila Emoingt, ih, a lista é enorme, grudo em bons contadores. De histórias verdadeiras, inventadas, esquecidas, aumentadas ou repassadas, isso é o que menos me importa.

Depois que comecei a escrever este livro, onde pude despejar meu desamparo e meu sofrido deslumbramento com o fato da morte levar todo mundo enquanto a vida traz outras gentes- é tudo uma questão de tempo – alguns personagens criaram vida e começaram a agir e a falar por si. Não relutei, claro, deixei-me levar por eles. A recorrência de um defeito, de uma qualidade ou característica dentro de uma família também sempre me espantou. Conheço um rapaz que nunca viu o pai, mas fala, gesticula, ri e faz piadas meio fora de hora exatamente igual ao pai que nunca viu. Observar gerações indo e vindo só faz aumentar meu espanto.

Agradeço a todos aqueles que me contaram casos, principalmente os de sexo e família, e dedico este livro aos meus amigos, de cujas memórias roubei pedacinhos de história para ajudar a compor este livro, e com quem hoje compartilho, boquiaberta, a iminência dos meus sessenta anos, os infortúnios e as graças de nossa breve existência. Espero que gostem.
(E espero que comprem...rs)

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